Reflexões sobre identidade, exaustão emocional e reencontro consigo mesma
Talvez você tenha chegado até este texto porque existe uma pergunta que tem aparecido cada vez mais na sua vida: “Quando foi que eu deixei de saber quem eu sou?” ou “Sinto que vivo no piloto automático.” Nem sempre essa pergunta surge de forma tão direta. Às vezes ela aparece como uma sensação de vazio difícil de explicar; em outras, como um cansaço que não melhora com descanso, uma irritação constante ou a impressão de que a vida está acontecendo rápido demais enquanto você apenas tenta acompanhar.
Muitas mulheres descrevem essa experiência de formas diferentes. Algumas dizem que não se reconhecem mais. Outras sentem que vivem para atender demandas, resolver problemas e cuidar de tudo ao redor, mas já não conseguem responder com clareza o que desejam para si mesmas. Há ainda aquelas que olham para a própria vida e reconhecem suas conquistas, mas carregam uma sensação silenciosa de desconexão, como se estivessem presentes em todos os lugares, menos dentro de si mesmas, vivendo no piloto automático. Se você já pesquisou termos como “não sei mais quem eu sou”, “me sinto perdida na vida” ou “como voltar a ser eu mesma”, saiba que essa experiência é mais comum do que parece. E não, ela não é um sinal de fracasso; na maioria das vezes, é um sinal de que algo importante dentro de você está pedindo para ser escutado.
Ao longo dos anos, percebi que poucas dores aparecem com tanta frequência no consultório quanto essa sensação de viver uma vida funcional por fora e distante de si mesma por dentro. Mulheres que chegam à psicoterapia buscando ajuda para ansiedade, exaustão emocional, dificuldades nos relacionamentos ou sensação de sobrecarga frequentemente descobrem que existe uma questão mais profunda atravessando tudo isso: em que momento eu deixei de ocupar a minha própria vida?
Ninguém se perde de si mesma de uma hora para outra
Existe uma ideia bastante popular de que grandes transformações acontecem em grandes momentos. Gostamos de imaginar que a vida muda depois de uma decisão radical, de uma crise marcante ou de um acontecimento extraordinário. Mas a experiência clínica costuma contar outra história. Raramente uma mulher acorda em uma terça-feira comum e percebe, de repente, que perdeu contato consigo mesma.
Esse afastamento geralmente acontece aos poucos. Ele acontece quando o cansaço é ignorado repetidamente porque existem responsabilidades mais urgentes, quando a necessidade de descanso é tratada como preguiça, quando um limite é ultrapassado porque “agora não é o momento” de lidar com aquilo, quando os próprios desejos passam a ocupar o último lugar da lista de prioridades. Nenhum desses movimentos parece especialmente grave quando acontece isoladamente. Pelo contrário, muitos deles costumam ser elogiados, vistos como maturidade, responsabilidade e força.
O problema é que existe uma diferença importante entre adaptação e abandono de si. Adaptar-se é uma capacidade humana fundamental. Todos nós precisamos negociar desejos, lidar com frustrações e responder às exigências da realidade. O sofrimento surge quando a adaptação deixa de ser uma escolha flexível e passa a ser a única forma possível de existir.
Na Gestalt-terapia, abordagem que orienta meu trabalho clínico, compreendemos que saúde não significa viver sem conflitos ou sofrimento, mas manter um contato vivo com a própria experiência. Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman desenvolveram uma compreensão do ser humano baseada justamente nessa capacidade de estar presente diante daquilo que sente, percebe e vive. Jean-Marie Robine descreve o contato como um encontro vivo entre a pessoa e o mundo. Quando esse encontro perde espontaneidade, passamos a repetir formas de funcionar que podem até ser eficientes, mas deixam de ser verdadeiramente nossas.
Talvez seja por isso que tantas mulheres consigam administrar rotinas extremamente complexas e, ainda assim, sintam que algo importante ficou para trás. Por outro lado, existe também a mulher que, diante dessa desconexão, não consegue mais seguir adiante. É aquela que se percebe paralisada, sentindo um peso que torna simples tarefas cotidianas exaustivas demais para serem sustentadas. Diferente daquela que ainda mantém a engrenagem funcionando, esta mulher sente que a própria vida travou. Não se trata de preguiça ou falta de vontade, mas de um esgotamento tão profundo que o sistema já não responde aos comandos habituais.
O peso de se tornar quem acreditamos que deveríamos ser
Quando falamos sobre mulheres que se perderam de si mesmas, é comum pensar imediatamente nas expectativas impostas pelos outros. Sem dúvida, elas têm um papel importante. Durante séculos, mulheres aprenderam que deveriam ser cuidadoras, disponíveis, fortes, organizadas, compreensivas e capazes de sustentar emocionalmente todos ao seu redor. Muitas dessas mensagens continuam presentes, mesmo que de formas mais sutis.
A filósofa Simone de Beauvoir observou que não nascemos prontas para ocupar determinados papéis; aprendemos a desempenhá-los ao longo da vida. Sua afirmação de que “não se nasce mulher, torna-se mulher” continua atual porque nos convida a refletir sobre quantas expectativas foram incorporadas sem que houvesse escolha consciente.
Mas existe uma armadilha ainda mais silenciosa. Com o passar dos anos, muitas dessas exigências deixam de vir de fora e passam a morar dentro de nós. Aos poucos, muitas mulheres passam a acreditar que precisam dar conta de tudo, ser fortes o tempo inteiro, manter a produtividade mesmo exaustas e atravessar dificuldades sem demonstrar fragilidade. O problema é que viver tentando corresponder a esse ideal cobra um preço alto — e, arrisco dizer, impossível.
Em algum momento, deixamos de perguntar como estamos e passamos a perguntar se estamos correspondendo àquilo que acreditamos que deveríamos ser. Essa mudança parece pequena, mas produz efeitos profundos. A experiência real perde espaço para uma versão idealizada de nós mesmas, e viver tentando alcançar essa imagem torna-se exaustivo.
A exaustão emocional de viver em permanente aperfeiçoamento
O filósofo Byung-Chul Han descreve a sociedade contemporânea como uma sociedade do desempenho. Diferentemente de outras épocas, em que as regras vinham principalmente de fora, hoje grande parte da cobrança acontece internamente. Não basta trabalhar, é preciso produzir mais. Não basta descansar, é preciso descansar da forma certa. Não basta existir, é preciso evoluir constantemente.
Essa lógica atravessa praticamente todas as áreas da vida e encontra terreno fértil quando se cruza com expectativas historicamente direcionadas às mulheres. A psicanalista Maria Rita Kehl observa que vivemos em uma cultura que transformou felicidade, realização e sucesso em imperativos, como se fosse possível — e obrigatório — sentir-se plena o tempo todo. O resultado é que muitas mulheres passam a viver sob uma pressão permanente para melhorar, crescer, corrigir e aperfeiçoar cada aspecto da própria existência.
Quando isso acontece, até experiências básicas passam a ser atravessadas por culpa. Descansar parece errado. Reconhecer limites parece egoísmo. Demonstrar vulnerabilidade parece fraqueza. Aos poucos, a pessoa deixa de se perguntar do que precisa e passa a se perguntar apenas o que ainda falta fazer.
Joel Birman, ao refletir sobre o sofrimento contemporâneo, chama atenção para o fato de que vivemos em uma época que valoriza intensamente autonomia e desempenho. Nesse cenário, admitir fragilidade muitas vezes parece falha, quando na verdade faz parte da condição humana.
E talvez seja necessário lembrar algo simples: você é humana.
Talvez seja por isso que tantas mulheres se sintam exaustas sem conseguir explicar exatamente o motivo.
E quando a adaptação faz você desaparecer?
Essa reflexão ganha ainda mais força quando pensamos em mulheres que passaram anos tentando se adaptar para serem aceitas. Isso pode acontecer em diferentes contextos, mas costuma ser especialmente intenso entre mulheres neurodivergentes. Muitas mulheres autistas ou com TDAH chegam à vida adulta carregando anos de adaptação constante, tentando compreender regras sociais que nem sempre foram construídas para elas. Em alguns casos, o esforço para parecer adequada se torna tão presente que o contato com interesses, limites, necessidades e características próprias vai ficando em segundo plano.
O resultado não é a perda da identidade. É o afastamento dela.
Mas essa experiência não pertence apenas às neurodivergências. Muitas mulheres aprendem, desde cedo, a monitorar comportamentos, ajustar emoções, controlar necessidades e priorizar expectativas externas. Com o tempo, essa adaptação se torna tão automática que a pergunta sobre quem elas realmente são começa a parecer difícil de responder. E talvez seja justamente nesse momento que a sensação de estar perdida aparece. Não porque a identidade desapareceu, mas porque o contato com ela foi ficando cada vez mais distante.
O reencontro consigo mesma não começa com uma resposta
Quando alguém percebe que perdeu contato consigo mesma, é natural buscar soluções rápidas. Vivemos cercadas por promessas de transformação, fórmulas de autoconhecimento e listas de passos para mudar de vida. Mas a experiência humana raramente funciona dessa forma.
Uma das contribuições mais importantes da Gestalt-terapia vem da Teoria Paradoxal da Mudança, desenvolvida por Arnold Beisser. Segundo ele, a mudança acontece quando uma pessoa se torna aquilo que é, e não quando tenta se transformar naquilo que não é. Pode parecer contraditório em uma cultura baseada em aperfeiçoamento constante, mas há uma sabedoria profunda nessa ideia.
Antes de mudar, é preciso perceber. Antes de corrigir, é preciso compreender. Antes de encontrar respostas, é preciso construir contato. Gary Yontef descreve a awareness como uma forma de presença consciente diante da própria experiência. Não se trata apenas de pensar sobre a vida, mas de habitá-la.
Existe uma enorme diferença entre analisar a própria existência e realmente estar presente nela. O reencontro consigo mesma começa nesse espaço. Não quando você se torna alguém melhor, mas quando volta a escutar quem já está aí.
Uma vida habitada vale mais do que uma vida perfeita
Nise da Silveira defendia a importância de enxergar a pessoa para além de seus sintomas ou dificuldades. Nenhuma existência pode ser reduzida aos problemas que enfrenta — e isso também vale para a forma como você se vê.
Você é mais do que seu cansaço, mais do que suas dúvidas, mais do que as expectativas que carrega, mais do que os papéis que desempenha. Talvez o reencontro consigo mesma não aconteça em uma grande revelação, mas em experiências simples que devolvem presença: uma conversa significativa, um momento de silêncio, uma caminhada sem pressa, uma escolha feita por desejo e não por obrigação. A vida costuma retornar nesses pequenos gestos.
E talvez a pergunta mais importante não seja “quem eu deveria me tornar?”, mas “o que em mim está esperando para ser escutado?”
Porque, no fim das contas, sentir-se perdida não significa necessariamente que você desapareceu. Às vezes significa apenas que passou tempo demais olhando para todos os lados e pouco tempo olhando para si mesma.
Um convite para continuar essa conversa
Se você sente que chegou o momento de retomar o contato com quem você é, saiba que não precisa fazer esse caminho sozinha. A psicoterapia não oferece respostas prontas sobre quem você deve ser, mas pode oferecer um espaço para explorar quem você já é, compreender sua história e reconhecer padrões que deixaram de fazer sentido.
Em uma cultura que frequentemente incentiva mulheres a ocuparem todos os lugares, exceto o próprio, esse processo pode ser profundamente transformador.
Se este texto falou com você, talvez exista algo dentro pedindo atenção. E talvez esse seja um bom lugar para começar.
Para continuar essa conversa
Uma leitura
Mulheres que Correm com os Lobos
Uma obra sobre identidade, criatividade, instinto e os caminhos de retorno a si mesma.
Uma história
O Castelo Animado
Uma fantasia que acompanha a jornada de Sophie, uma jovem que passou tanto tempo acreditando ocupar um lugar pequeno no mundo que quase deixou de perceber a própria força. Uma história sobre identidade, transformação e a possibilidade de descobrir quem somos quando paramos de nos definir apenas pelas expectativas que carregamos.
Uma série
Anne with an E
Uma história sobre singularidade, pertencimento e a coragem de ocupar o próprio lugar no mundo.
Uma pergunta para levar consigo
Quanto da vida que você vive hoje foi construída a partir do que realmente faz sentido para você, e quanto foi construída a partir daquilo que você aprendeu que deveria ser?
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
BEISSER, Arnold. A Teoria Paradoxal da Mudança. In: FAGAN, Joen; SHEPHERD, Irma (orgs.). Gestalt-Terapia: Teoria, Técnicas e Aplicações. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
BIRMAN, Joel. Mal-Estar na Atualidade: A Psicanálise e as Novas Formas de Subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
KEHL, Maria Rita. O Tempo e o Cão: A Atualidade das Depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.
ROBINE, Jean-Marie. Contato e Relação em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2006.
SILVEIRA, Nise da. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática, 1992.
YONTEF, Gary M. Processo, Diálogo e Awareness: Ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.
Gostei muito dessa leitura!! Irei guardar para ler em outros momentos, gosto muito desse livro..