A Cachorra, de Pilar Quintana: sobre expectativas, frustrações e as dores que nunca aprendemos a nomear

Alguns livros terminam na última página. Outros continuam ecoando dentro da gente por muito tempo.

A Cachorra, de Pilar Quintana, foi uma dessas leituras para mim. Daquelas que a gente devora rápido, mas que pesam no peito depois.

Confesso que o final me tirou o chão. Custei a acreditar no que estava lendo e, para quem me conhece e sabe do meu amor pelos animais, o choque foi ainda maior. Talvez tenha me doído tanto porque, no fundo, eu esperava uma reparação. Torcia para que a história encontrasse um caminho capaz de aliviar a dor que vinha sendo construída ao longo da narrativa.

Mas a vida raramente oferece esse tipo de conforto. E a literatura, quando é honesta com a experiência humana, também não.

Ao longo do livro, acompanhamos Damaris, uma mulher marcada por perdas e frustrações. Sua história é atravessada por obstáculos concretos, mas o que mais machuca é algo silencioso: a distância enorme entre a vida que ela tem e a vida que ela imaginava viver.

E não se trata apenas do que a Damaris deseja para si mesma. Existe o peso esmagador das expectativas que a cercam, da família, da comunidade e dos papéis que parecem naturalmente atribuídos às mulheres. A maternidade, ali, não aparece só como um desejo individual, mas como uma cobrança invisível, quase como uma validação do que significaria ser mulher.

É justamente aí que o livro toca em algo universal. Em maior ou menor grau, todos nós crescemos cercados por expectativas. Algumas são nossas. Outras nos foram entregues muito antes de termos idade para escolher.

Esperam que sejamos bem-sucedidos. Que construamos uma família. Que encontremos um amor ideal. Que alcancemos determinados marcos antes dos trinta. Que nos tornemos a versão que os outros planejaram para nós.

O problema é que, quando essas expectativas falham, a gente não perde só um sonho. Muitas vezes, perde a própria identidade que foi construída ao redor dele.

O que mais me chamou atenção em Damaris foi que sua dor raramente aparece de forma clara. O livro não traz longas reflexões ou grandes elaborações sobre o sofrimento dela. E isso acontece porque a própria personagem parece não ter acesso ao que sente.

A frustração, a tristeza e a solidão estão ali o tempo todo. Mas quase nada disso é nomeado. As emoções transbordam nas atitudes dela, nos silêncios e na forma como ela reage ao mundo, e não por meio de uma compreensão consciente.

Essa falta de contorno me fez pensar direto no que vejo todos os dias na clínica.

Muitas pessoas chegam ao consultório sofrendo há anos sem conseguir explicar o que sentem. Sabem que existe um vazio, uma angústia no peito, uma irritação constante ou uma sensação persistente de inadequação. Mas não conseguem localizar de onde isso vem.

Por que isso acontece? Porque ninguém as ensinou a olhar para dentro. Passaram a vida tentando sobreviver, seguir em frente e corresponder ao que esperavam delas. Com o tempo, algumas dores se tornam tão antigas que passam a ser confundidas com a própria personalidade. A pessoa acha que “ela é assim”, quando na verdade está apenas carregando um peso que não é dela.

A Cachorra ficou comigo por isso. Não só pela história em si, mas pela forma como revela o impacto invisível das perdas e das frustrações que nunca encontram espaço para serem reconhecidas.

Afinal, nem todo sofrimento nasce de um grande trauma ou de um acontecimento específico. Alguns surgem daquilo que nunca aconteceu. Outros, da tentativa exaustiva de ser quem os outros queriam que fôssemos.

Uma das tarefas mais difíceis e mais bonitas do processo terapêutico é justamente essa: separar o que é verdadeiramente seu daquilo que você passou a vida carregando só porque te disseram que era sua obrigação levar.

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