Existe uma cena que aparece com frequência no consultório. A pessoa finalmente consegue algum tempo livre. As tarefas mais urgentes foram concluídas, os compromissos cessaram por algumas horas e, em teoria, aquele deveria ser um momento de descanso. Mas o que surge nem sempre é alívio. Muitas vezes aparece uma inquietação difícil de explicar.
Ela pega o celular sem um objetivo claro. Abre e fecha aplicativos. Procura alguma coisa para assistir. Pensa em começar um curso. Organiza mentalmente os próximos dias. Ou simplesmente permanece com a sensação de que deveria estar fazendo algo mais útil.
O tempo livre está ali, mas parece impossível habitá-lo.
É comum associarmos esse desconforto ao excesso de demandas da vida contemporânea. Sem dúvida, jornadas extensas de trabalho, excesso de estímulos e responsabilidades constantes produzem desgaste. No entanto, essa explicação nem sempre é suficiente. Algumas pessoas aguardam ansiosamente pelas férias e descobrem, quando elas chegam, que continuam inquietas. Outras sonham com uma tarde livre e, quando finalmente a encontram, não sabem exatamente o que fazer com ela.
Nesses casos, a questão parece estar menos relacionada à quantidade de tempo disponível e mais à forma como aprendemos a nos relacionar com o próprio tempo.
Quando toda experiência precisa ter uma finalidade
Uma das características mais marcantes da vida contemporânea é a dificuldade de sustentar experiências que não estejam orientadas para um objetivo. Pouco a pouco, aprendemos a perguntar para que serve aquilo que fazemos.
Lemos para aprender algo útil. Assistimos a conteúdos que agreguem conhecimento. Buscamos atividades que possam desenvolver habilidades importantes para a carreira. Até mesmo os hobbies, tradicionalmente associados ao lazer, frequentemente passam a ser avaliados por sua capacidade de produzir algum retorno.
Não é raro ouvir perguntas como: “Isso pode virar uma fonte de renda?” ou “Como eu poderia aproveitar melhor essa habilidade?”
Naturalmente, não há nada de errado em transformar um interesse em profissão ou buscar crescimento pessoal. O problema surge quando essa lógica passa a ocupar todos os espaços da experiência. Quando toda atividade precisa gerar um resultado. Quando todo interesse precisa ser justificado. Quando toda experiência precisa provar sua utilidade para merecer existir.
O filósofo Byung-Chul Han, ao refletir sobre a sociedade contemporânea em Sociedade do Cansaço, propõe que deixamos para trás uma cultura organizada principalmente pela disciplina e passamos a viver sob a lógica do desempenho. Já não basta cumprir obrigações. É preciso melhorar continuamente, produzir mais, aprender mais, aproveitar melhor o tempo e tornar-se uma versão constantemente otimizada de si mesmo.
Talvez por isso até mesmo o descanso tenha se tornado um território tão difícil de ocupar. Ele passou a ser atravessado pelas mesmas exigências que organizam o trabalho.
A dificuldade de permanecer na própria experiência
Quando pensamos em ansiedade, costumamos imaginar alguém dominado por preocupações ou pensamentos acelerados. Embora essa seja uma manifestação importante, existe uma forma mais silenciosa de sofrimento que frequentemente passa despercebida.
Ela aparece na dificuldade de permanecer.
Permanecer em uma conversa sem verificar o celular. Permanecer em um filme sem pensar nas tarefas do dia seguinte. Permanecer em um momento de descanso sem transformá-lo imediatamente em planejamento, análise ou preocupação.
A experiência mal começa e a atenção já foi deslocada para o próximo passo.
É como se a vida estivesse sempre alguns metros adiante.
Como se o presente fosse apenas um corredor que precisa ser atravessado o mais rápido possível para que possamos chegar a algum outro lugar.
Nesse movimento, algo importante se perde. Não apenas o descanso, mas a possibilidade de contato com aquilo que está sendo vivido. Afinal, não nos relacionamos com a vida apenas através dos pensamentos. Também nos relacionamos através das sensações, dos afetos, da curiosidade, do prazer e da experiência direta.
São justamente essas dimensões que tendem a desaparecer quando a atenção permanece constantemente capturada pelo que ainda não aconteceu.
O valor da experiência em si
A Gestalt-terapia oferece uma perspectiva particularmente interessante sobre essa questão. Ao invés de olhar apenas para explicações ou interpretações, ela volta sua atenção para a experiência vivida.
Laura Perls, uma das principais formuladoras da abordagem, defendia a importância do contato com aquilo que se apresenta no momento presente. Não porque o passado ou o futuro sejam irrelevantes, mas porque a vida acontece sempre na experiência que está sendo vivida agora.
Essa ideia parece simples, mas possui implicações profundas.
Ela nos convida a reconhecer que nem tudo precisa ser imediatamente transformado em aprendizado, produtividade ou resultado para ter valor. Algumas experiências são importantes justamente porque nos colocam em contato com aspectos de nós mesmos que dificilmente aparecem em contextos orientados pelo desempenho.
É o que acontece quando lemos por prazer, caminhamos sem destino, observamos uma paisagem, cultivamos um hobby ou nos permitimos permanecer por alguns instantes em algo que não precisa gerar nenhum benefício mensurável.
Nesses momentos, a experiência deixa de ser um meio para alcançar outra coisa e passa a ser um fim em si mesma.
Quando foi que viver deixou de ser suficiente?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes do nosso tempo.
Não porque exista algo de errado em ter objetivos, construir projetos ou desejar crescimento. Essas são dimensões legítimas da existência humana. A questão surge quando perdemos a capacidade de habitar aquilo que já está acontecendo enquanto perseguimos aquilo que ainda não chegou.
Quando o descanso precisa ser merecido.
Quando o lazer precisa ser útil.
Quando os interesses precisam se transformar em oportunidades.
Quando até os momentos de pausa passam a ser avaliados pelo que produzem.
Erich Fromm, em Ter ou Ser?, observava que muitas vezes nos relacionamos com a vida a partir da lógica da aquisição: o que isso me acrescenta, o que isso me oferece, o que isso me permite conquistar. Talvez parte do sofrimento contemporâneo esteja relacionada justamente à dificuldade de sustentar experiências que não respondem a essas perguntas.
Experiências que não precisam nos levar a lugar algum.
Experiências que não precisam gerar desempenho.
Experiências que não precisam justificar a própria existência.
Talvez o descanso comece justamente aí. Não quando eliminamos todas as responsabilidades da vida, mas quando recuperamos a capacidade de estar presentes nela.
Porque, em algum momento do caminho, muitos de nós aprendemos a perguntar para que serve viver.
E talvez exista algo profundamente transformador em voltar a experimentar a vida antes de exigir dela uma resposta.
Algumas perguntas não precisam de respostas rápidas.
Precisam de espaço para serem exploradas.
A psicoterapia pode ser esse espaço.
Se você deseja compreender melhor sua relação com o tempo, com a ansiedade e com as exigências que atravessam sua vida, será um prazer acompanhar esse processo.
Entre em contato para agendar uma conversa inicial.
Leituras recomendadas
Se este tema despertou seu interesse, algumas obras podem aprofundar a reflexão:
- Sociedade do Cansaço — Byung-Chul Han
- Ter ou Ser? — Erich Fromm
- Living at the Boundary — Laura Perls
- A Coragem de Criar — Rollo May
- Ócio Criativo — Domenico De Masi
- Ou apenas leia algo que voce tem vontade, sem um proposito.
Referências
FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1987.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
MAY, Rollo. A Coragem de Criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
PERLS, Laura. Living at the Boundary. Gouldsboro: Gestalt Journal Press, 1992.
PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia: excitação e crescimento da personalidade humana. São Paulo: Summus, 1997.
YONTEF, Gary. Processo, Diálogo e Awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.
DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
Vdd, ultimamente tem sido difícil até descansar. Ótima reflexão