O óbvio é o que a gente mais evita olhar.
Muitas vezes, a gente chega na terapia achando que a resposta para a nossa angústia está escondida em um baú trancado a sete chaves no passado. A gente quer o complexo. A gente quer a explicação mirabolante que justifique o nosso mal-estar. Temos essa ideia de que, se a solução não for difícil, ela não tem valor. Mas, na prática da Gestalt-terapia, o que eu percebo diariamente é que a transformação não está no que está escondido, mas no que está escancarado — e a gente simplesmente não consegue sustentar o olhar.
A complexidade como labirinto.
A gente usa o pensamento excessivo como uma forma de não sentir. Criamos teorias sobre nossos traumas, rotulamos nossas dores com nomes técnicos e fazemos planos mirabolantes para um futuro que nunca chega. Tudo isso é ruído. É uma forma de deflexão: um desvio que a mente faz para não encarar o desconforto do agora.
Enquanto você se perde tentando entender o “porquê” de cada atitude, você deixa de perceber o como você está existindo neste exato momento.
- Você percebe como sua respiração trava quando o assunto fica sério?
- Você nota como seus olhos buscam o canto da sala para não sustentar o contato?
- Você sente o peso nos ombros que você carrega como se fosse parte da sua pele?
Sustentar o “Aqui-Agora” é um ato de coragem.
No consultório, meu papel não é te dar mais teorias para você pensar. É te convidar a voltar para casa. E essa casa é o seu corpo, são os seus sentidos, é a sua realidade imediata. Sair da confusão mental não é encontrar uma saída mágica, é aprender a ficar onde se está, com clareza.
É transformar aquele “não sei o que sinto” em um contato real com o vazio, com a falta ou com a potência que está vibrando aí dentro. Às vezes, o que você chama de ansiedade é apenas uma energia represada que não encontra espaço para sair. Às vezes, o que você chama de depressão é um cansaço profundo de sustentar uma máscara que já não serve mais.
O óbvio é a fronteira.
A cura não é uma linha de chegada; é o despertar da consciência sobre o processo. É quando você finalmente para de lutar contra o que é e começa a se dar conta de como você se interrompe, de como você se sabota e, principalmente, de como você pode se ajustar de forma mais saudável.
A simplicidade assusta porque ela é direta. Ela não permite desculpas. Mas é só através dela que a vida volta a ter fluidez. Menos análise intelectual, mais presença sentida.
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